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A importância do jornalista e produtor de conteúdo na divulgação da cultura 

A necessidade de informar sobre determinado assunto normalmente vem acompanhada de uma paixão. O entusiasmo em cercar-se de conteúdos culturais desperta o desejo intenso de compartilhar informações com ética, responsabilidade e detalhes que, talvez, os telespectadores deixaram para trás. Não é incomum uma pessoa transformar uma paixão em profissão, e foi isso o que aconteceu com Stefani Couto, jornalista e fundadora do portal Korean Magazine BR. “ Uma coisa foi levando à outra. [...] Eu comecei a trabalhar na área de animes e percebi que eu não gostava apenas de assistir, eu gostava de analisar. Tem muita história dentro dos animes que são complexas, mexem muito com a gente e nos faz refletir. Tem muita gente que fala que anime é coisa de criança, mas não, não é”. Também, a jornalista compartilha que gosta muito de K-Dramas e do grupo de K-Pop Exo. 

Stefani destaca que o jornalista é extremamente importante, não só dentro da cultura, mas como um todo. “O jornalista é a porta que vai abrir para o mundo, para as pessoas conhecerem, porque é o jornalista que leva a informação. Somos nós que ficamos o tempo todo trabalhando, pesquisando e buscando coisas novas”. Além disso, a jornalista compartilha que gosta de trazer não apenas o seu lado fã, mas também o lado profissional. No Brasil, dificilmente os grandes jornais selecionam jornalistas especializados na cultura japonesa ou sul-coreana, e tal erro pode gerar estereotipização ou cobertura inadequada de determinados eventos. 

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Jornalista Stefani Couto na edição de 2024 do K-Festival: Festival da Cultura Coreana.

Foto: Divulgação/ Instagram/ @stefanicouto

 

No livro Jornalismo Cultural no Século 21, Franthiesco Ballerini reflete que entretenimento e cultura não são distintos, pois uma obra, por mais que seja voltada ao entretenimento, também apresenta traços culturais. Com isso, é necessário o cuidado e respeito com a abordagem de alguns temas, “Eu acho que é algo que precisa ser estudado para falar a respeito. Ter essa expansão da cultura é algo muito positivo, só que as pessoas precisam saber sobre o que estão falando. [...] Quando falam sobre animes, os criadores precisam entender que os animes são uma base muito forte da cultura, tanto na parte folclórica quanto do dia a dia e costumes”, destaca Kou, produtor de conteúdo da cultura POP japonesa.

Kou complementa que é importante ter esse tipo de cuidado para não colocar a cultura como algo exótico. “É só um povo que tem a cultura diferente da sua, eu acho que é a coisa mais natural do mundo”. Dessa forma, é perceptível a importância de um profissional qualificado para criar conteúdos e cobrir eventos culturais. E, agora, com o crescimento da cultura sul-coreana cada vez mais em evidência, é fundamental que o público tenha acesso a materiais sérios, respeitosos e de qualidade. Natália Raquel, jornalista e fundadora do perfil teamdorameiraa nas redes, destaca a importância de uma pesquisa fundamentada antes de criar qualquer conteúdo. “Na época da lei marcial na Coreia do Sul, muita gente estava passando a informação errada. Quando isso acontece, eu acho mais fácil ir nos stories e explicar por partes. Então, eu acho que é importante o influencer saber. É necessário pesquisar, mas, infelizmente, nem todo mundo vai passar a informação correta. [...] No meu perfil eu sempre tento passar o que eu pesquiso. Eu entro em um site coreano e leio com atenção para passar tudo certo para o team —  apelido dado por Natália para os seus seguidores”.  

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João Saito na première do filme "Kaiju Nº 8: Missão de Reconhecimento".

Foto: Divulgação/ Instagram/ @orewakou

Herói: A revista que revolucionou o jornalismo nerd

O público interessado na cultura japonesa e sul-coreana está cada vez mais amplo, e os jornalistas e criadores de conteúdo são uma peça importante para ampliar o conhecimento e furar a bolha de cada vez mais indivíduos. Kou compartilha que recebe diversas mensagens de pessoas que não o seguem dizendo que nunca leram mangá ou assistiram anime, mas começaram a acompanhar depois de assistirem um vídeo dele que apareceu na timeline. “Mesmo fora da bolha, várias pessoas se sentem atraídas, e isso é muito gratificante”, complementa o criador de conteúdo. Atualmente, é comum que as pessoas utilizem as redes sociais para decidirem o que consumir, mas nem sempre foi assim. O jornalismo nerd/ geek não é algo totalmente novo. Em 1994, surgiu a revista Herói, que conquistou o público com textos que fugiam do padrão e uma diagramação inovadora. 

Edições da revista Herói. Fotos: Reprodução/ Internet

 

De acordo com André Forastiere, um dos criadores da Herói, em artigo acadêmico de Ivan Carlo Andrade de Oliveira, Doutor em Arte e Cultura Visual e Professor da Universidade Federal do Amapá, “Uma coisa que eu sempre ensinei para as pessoas que iam escrever na Herói: você começa pela história! Coloca o cara na aventura, no desenho, na piada, na Batcaverna”. De acordo com o artigo de Ivan Carlo, apesar dos textos minuciosos e escritos após uma longa pesquisa, a ideia era que os leitores percebessem que é um fã escrevendo para outro fã. “Mas, se por um lado, havia uma grande aceitação do público, a ponto de muitos leitores colecionarem a revista, por outro lado havia grande rejeição, inclusive por parte da academia. Muitos simplesmente não conseguiam ver aquilo como jornalismo”, complementa Ivan.

Ainda há rejeição por parte do público e, até mesmo, de outros jornalistas, em relação ao jornalismo nerd. Isso ocorre porque, ainda hoje, obras de entretenimento são vistas como rasas e com pouca credibilidade. Além disso, de acordo com trecho do artigo acadêmico de Ivan, essa rejeição pode estar relacionada com a ideia de que o jornalismo não pode ser divertido, no entanto, “Não existe nenhuma oposição entre diversão e informação”, complementa o professor. As obras de entretenimento atraem públicos de diferentes interesses e faixas etárias, elas são uma peça fundamental no conhecimento de diferentes culturas para o público geral. Franthiesco Ballerini ressalta que o consumo de obras do mundo todo é importante para ampliar a questão estética de linguagem, técnica, e entender como o mundo trabalha, além de aumentar o repertório. Infelizmente, muitas pessoas não possuem o costume de assistir os chamados “filmes de críticos”, que são obras que recebem a atenção dos críticos de cinema. Dessa forma, as produções de entretenimento passam a ser um dos únicos contatos que o público geral estabelece com diferentes culturas. “O status da cultura POP aumentou muito, ela está muito presente na vida da gente, no mundo todo. É uma coisa global, não tem como você fugir”, destaca a historiadora Natania Nogueira. 

Diferente do que muitos pensam, o jornalismo é sim necessário na área do entretenimento, que não deixa de transmitir cultura e valores de um determinado país. As obras, como animes e K-Dramas, compartilham muito da cultura japonesa e sul-coreana, e escrever com ética e responsabilidade é fundamental para levar corretamente as informações até os leitores. De acordo com Stefani, para trabalhar com a cultura asiática é necessário alguém que saiba como informar sobre o assunto e como tratar a temática. “Se usar termos técnicos demais, as pessoas podem não entender. Eu sempre priorizo uma escrita formal, mas dentro do que o nosso leitor vai conseguir entender. Principalmente pela faixa etária. Há muitos termos, principalmente na área do K-pop. The Rose é uma banda, BTS é um grupo. Você não pode falar que BTS é uma banda, eles não tocam instrumentos”, destaca a jornalista.

Jornalista Stefani Couto na cobertura do K-Festival: Festival da Cultura Coreana.

Fotos: Divulgação/ Instagram/ @stefanicouto

O jornalismo nerd já é uma realidade desde a criação da revista Herói, mas ainda há um longo caminho para percorrer. Apesar do aumento significativo de profissionais especializados na área, ainda é necessário vencer alguns preconceitos que existem no meio. Em seu artigo acadêmico, Ivan Carlo reflete que o formato do texto jornalístico não é imutável, ele é um processo que tem como objetivo encontrar a melhor forma de se comunicar com o público-alvo. Também, no fim de seu texto, o professor deixa um questionamento interessante: estariam os cursos de jornalismo preparando os seus alunos para os novos desafios, para os novos formatos, gêneros e estilos ou os estaria formando apenas para o jornalismo convencional? “Essas são reflexões fundamentais em uma época em que o jornalismo, mais do que nunca, precisa se reinventar para sobreviver”, complementa o professor.

Os jornalistas e criadores de conteúdo contribuem para a divulgação de produções de diversos países. O povo brasileiro é um grande admirador de obras sul-coreanas e japonesas, mas qual será os animes e K-Dramas de maior sucesso em nosso país? Chegou o momento de relembrarmos, com muito carinho, algumas produções que obtiveram destaque através de suas narrativas incríveis e animações surpreendentes. 

Esse é um Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo.

 

Autora: Wendy Gomes

Orientador: Prof. Dr. Sancler Ebert

 

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