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Entre realismo e fantasia: Como Parasita e Studio Ghibli redefiniram o cinema japonês e sul-coreano

​​​​Com a recente trend do Studio Ghibli, que consiste em recriar imagens com o estilo de animação presente nos filmes do estúdio, muitos seguiram a tendência, mas, talvez, poucos conheçam, de fato, o Studio Ghibli e tudo o que ele representa para a cultura japonesa. Em 2003, A Viagem de Chihiro, dirigido por Hayao Miyazaki, recebeu o prêmio de melhor animação, sendo a primeira animação estrangeira a vencer essa categoria no Oscar. O filme, que traz questões sobre amadurecimento, crítica à ganância e construção de identidade costuradas em uma narrativa mitológica, consolidou-se como uma das maiores animações já feitas. De acordo com Franthiesco Ballerini, “Miyazaki é hoje o grande mestre, é o maior animador de todos os tempos, maior que a Disney, maior que todos. Ele é um artista puro, é um artista que fez da animação uma obra prima. Eu acho que ninguém, nenhum animador do mundo fez animação virar uma obra de arte tão perfeita quanto o Miyazaki”. ​

De acordo com Cristiane Sato, em seu livro JAPOP, Hayao Miyazaki, um dos fundadores do Studio Ghibli, nasceu em 1941 em Tóquio. Filho de um diretor de uma empresa que fabricava peças para caças na guerra, e de uma mulher inteligente, cuja personalidade foi uma inspiração para Miyazaki, o diretor de animação nasceu em condições privilegiadas. Apesar de formar-se em ciências políticas e economia, foi na animação que o jovem encontrou o seu destino, e, sem perder tempo, logo após a faculdade, começou a trabalhar como estagiário na Toei Animation, onde conheceu Isao Takahata, seu futuro sócio no Studio Ghibli. ​​

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Hayao Miyazaki. Foto: Divulgação/ Studio Ghibli Brasil

 

Com uma trajetória que abrange muitas animações de sucesso, Hayao “é reconhecido como artista e intelectual por imprimir características pessoais a seus trabalhos, expressando encantadora criatividade [...]. É respeitado como empresário por ter ultrapassado não só as produções Disney nos cinemas japoneses, como também grandes produções de Hollywood”, destaca Sato em seu livro. 

De acordo com Amanda Rotta, editora-chefe e responsável pelo portal Studio Ghibli Brasil, os filmes produzidos pelo Studio Ghibli valorizam temas associados ao meio ambiente, autodescoberta, amadurecimento, críticas ao militarismo, humanismo e feminismo. “Todos estes são temas que considero atemporais”. Além dos temas relevantes e reflexivos, os filmes do Studio Ghibli fogem da estrutura convencional utilizada por filmes hollywoodianos, em que há o abuso de cenas de ação e poucos momentos de silêncio. “O Studio Ghibli preza pela narrativa e desenvolvimento, em envolver o público naquele universo e personagens. E algumas das formas muito utilizadas pelo estúdio para alcançar isso, é através dos momentos de contemplação, ambiguidade, foco na jornada e não apenas no objetivo”, complementa Amanda. 

Assim como a narrativa de um filme, a trilha sonora também deve ser aproveitada. Conheça mais sobre os filmes vencedores do Oscar enquanto desfruta de algumas das músicas presentes nas produções do Studio Ghibli:

Cenas dos filmes do Studio Ghibli. Fotos: Divulgação/ Site Oficial/ Studio Ghibli

 

Antes de A Viagem de Chihiro, outros filmes, que também são muito admirados e conhecidos no Brasil, foram dirigidos por Miyazaki. Entre eles estão Meu Amigo Totoro, O Serviço de Entregas da Kiki, A Princesa Mononoke e outros que, apesar de não muito conhecidos pelo público geral, são aclamados por fãs do diretor. No entanto, foi A Viagem de Chihiro que “tornou-se não apenas o animê, mas o filme mais premiado da história do cinema japonês, conquistando boa parte dos prêmios internacionais mais importantes em 2002, como o dos Críticos de Cinema de Nova York, o dos Críticos de Cinema de Los Angeles, o de melhor filme asiático do festival de Hong Kong, o Urso de Ouro de melhor filme do Festival de Berlim, e o Oscar da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de melhor desenho animado longa-metragem, batendo concorrentes como A Era do Gelo da Dreamworks, e Lilo e Stitch e Planeta do Tesouro da Disney. Foi a primeira vez que um desenho japonês conseguiu o prêmio máximo do cinema norte-americano”, afirma Sato em seu livro.

Trailer do anime "A Viagem de Chihiro". Vídeo: Reprodução/ Youtube/ GKIDStv

 

A Viagem de Chihiro, filme que liderou as bilheterias do Japão por 15 semanas, acompanha a jornada de Chihiro, uma garotinha de dez anos que enfrenta uma mudança de casa e escola contra a sua vontade. Enquanto seus pais dirigem até seu novo lar, eles encontram um túnel e decidem atravessá-lo. Do outro lado,  percebem que há alguns restaurantes com muita comida, mas ninguém para atendê-los. Decididos a provar a refeição que lhes parece tão saborosa, os pais de Chihiro aproveitam o banquete com o intuito de pagar assim que um dos responsáveis pelo restaurante aparecer.

No entanto, por consumirem uma refeição que não lhes pertencia, eles tornam-se porcos. O ponto central da narrativa é a trajetória e adversidades que a garota precisa enfrentar para salvar os seus pais. O filme traz críticas ao consumismo e ganância e, assim como diversas obras de Hayao Miyazaki, temas ambientais. Além disso, há personagens memoráveis, como Sem-Rosto, que é um espírito moldado através das pessoas e do ambiente em que se encontra. De acordo com a rede oficial da Nippon Television, Hayao Miyazaki explica que “Há muitos sem-rostos ao nosso redor… Acho que há pessoas em todos os lugares que querem estar com alguém assim, mas não tem noção de si mesmas”. A Viagem de Chihiro é um filme que, por sua narrativa e elementos fantásticos, encanta as crianças, mas suas críticas, reflexões e camadas profundas podem ser entendidas de forma ampla por adultos e, inclusive, emocioná-los. 

Cenas do anime "A Viagem de Chihiro". Fotos: Divulgação/ Site Oficial/ Studio Ghibli

 

Com tantos prêmios e o reconhecimento internacional dos filmes produzidos pelo Studio Ghibli, os animes passaram a ser vistos de outra forma, com mais credibilidade e curiosidade, já que as obras que antes eram consideradas “entretenimento para criança” no Ocidente, mostrou ser muito além e profundo do que poderíamos imaginar. De acordo com Amanda, “Com o Oscar dado para a Viagem de Chihiro, muitas pessoas que sequer consumiam animes, assistiram e passaram a se interessar pelo gênero. O Studio Ghibli tem essa característica de fazer filmes pensando nas crianças, mas não apenas para elas. São filmes que possuem muitas camadas. E acho que o público ocidental se encantou por esse diferencial e começou a popularizar a animação japonesa por todo o mundo”. Além disso, é importante pontuar que essa presença massiva dos animes no Brasil também está relacionada com o soft power.

Amanda complementa afirmando que a identidade tradicional é um diferencial e sempre será uma marca do Studio Ghibli para as futuras gerações. “Um estúdio que mesmo chegando no século XXI, se manteve fiel à sua filosofia de trabalho. Mesmo que haja inserções de CG em partes das produções, e exista trabalhos feitos inteiramente em CGI como a série Ronja e o filme Aya e a Bruxa, são exceções na vasta filmografia do estúdio e acho que as técnicas manuais sempre serão valorizadas pelo cuidado e padrão elevado de qualidade e trabalho que demandam de um artista”.

Hayao Miyazaki, que havia anunciado sua aposentadoria, mas não a cumpriu, também dirigiu O Menino e a Garça, segundo filme do diretor a receber o prêmio de Melhor Animação no Oscar de 2024. No documentário Hayao Miyazaki e a Garça, disponível na Netflix, fica claro que os personagens da animação são inspirados em pessoas próximas a ele e que desempenharam um papel fundamental em sua vida, como Isao Takahata. Amanda brinca que “Hayao Miyazaki é uma força da natureza, um tipo de mente criativa que precisa trabalhar para se manter vivo”.

Trailer do anime "O Menino e a Garça". Vídeo: Reprodução/ Youtube/ NetflixBrasil

 

O Menino e a Garça conta a história de Mahito, um menino que perdeu sua mãe em um incêndio e que, guiado por uma garça falante, parte em uma jornada no mundo compartilhado pelos vivos e mortos. O garoto, que procura sua madrasta perdida no outro mundo, reencontra sua mãe quando jovem e trilha um caminho jamais imaginado. O filme combina elementos fantásticos e aborda sobre amadurecimento, luto e a jornada de um menino que precisa abrir mão, por mais doloroso que seja, do que é importante para ele. A obra ensina que, apesar das adversidades da vida, o caminho que trilhamos, as memórias coletadas e as experiências obtidas podem ser muito importantes para o nosso aprendizado.

Cenas do anime "O Menino e a Garça". Fotos: Divulgação/ Site Oficial/ Studio Ghibli

 

O título original do filme é Como você vive? uma pergunta que diz muito mais sobre a obra do que o nome O Menino e a Garça. Além disso, traz muito sobre o próprio Hayao Miyazaki, uma vez que, no documentário Hayao Miyazaki e a Garça, o diretor fala sobre o luto de perder muitos de seus colegas, com destaque para Isao Takahata, que o auxiliou como um mestre e, depois, o motivou como um rival. Além disso, de forma lúdica, com uma combinação do mundo real e cenas fantasiosas de filmes do Studio Ghibli, o documentário traz muita reflexão do diretor a respeito da morte. Também, mostra a dedicação e participação de Miyazaki em cada obra realizada e que, mesmo com a dificuldade de trabalhar com a idade avançada, ele persiste.

De acordo com Franthiesco Ballerini, as animações do Ghibli destacam-se como as melhores do mundo, “elas são autorais, contemplativas, fortes. Há muitas décadas os japoneses fazem animes para todos os públicos. Enquanto as animações americanas, só a partir de Toy Story que realmente é feito para adultos e crianças. Os japoneses são pioneiros nisso, eles fizeram escola e ensinam a contar uma história para qualquer público, com traçados de animação tradicional e que atingem um status de arte perfeita”. As animações do Studio Ghibli possuem muitas diferenças daquelas realizadas no Ocidente, principalmente em relação ao roteiro, estilística e abordagem cultural. “Enquanto as animações ocidentais, como as da Disney e Pixar, seguem uma fórmula mais estruturada e voltada para o entretenimento em massa, o Studio Ghibli adota um estilo mais artesanal, filosófico e introspectivo”, afirma Amanda. 

Parasita: O divisor de águas do cinema sul-coreano

Assim como o Japão, a Coreia do Sul também vem construindo uma base sólida no mercado cinematográfico. Há grandes nomes no cinema sul-coreano, como Park Chan-wook, Kim Ki-duk e Kim Ki-young. No entanto, foi Parasita, do diretor Bong Joon-ho, que trouxe um marco para o reconhecimento da cultura sul-coreana, o prêmio de Melhor Filme no Oscar de 2020. De acordo com matéria publicada no site Korean Magazine BR, Roberto Honorato, professor e crítico de cinema, destaca que o sucesso de Parasita é um resultado de diferentes fatores, “O seu sucesso não se deu apenas pelo investimento monetário, mas pela ótima direção, elenco e o debate sobre problemas sociais que espelham uma triste realidade de países periféricos, além de experimentar diversos gêneros narrativos, como comédia, drama e horror”.​

Trailer do filme "Parasita". Vídeo: Reprodução/ Youtube/ ingresso-com

 

A narrativa do filme Parasita acompanha duas famílias em posições socioeconômicas bem diferentes, os Kim e os Park. O ponto inicial do enredo começa quando um dos filhos da família Kim, com a ajuda de sua irmã, elabora um diploma falso e começa a dar aulas de inglês para a filha da família Park. Com isso, deslumbrados com a forma luxuosa que os Park vivem, a família Kim traça um plano e se infiltram um por um na rica família. O filme, que tem como pauta a desigualdade social, traz um tema global, visto que os problemas sociais e econômicos estão presentes nos mais diversos países. Além de um tema universal, é inegável que Parasita apresenta um roteiro bem construído e uma combinação de gêneros que evidenciam a mensagem que a narrativa deseja transmitir.

Cenas do filme "Parasita". Fotos: Divulgação/ Site Oficial/ CJ ENM

 

Franthiesco Ballerini destaca que o cinema sul-coreano tem se colocado à altura dos melhores países do mundo, investindo em roteiro, produção, fotografia e efeitos especiais. “O importante é apontar que é um país que está no Olimpo hoje, à altura de grandes produtores de filmes de entretenimento e arte”. Apesar do mérito próprio em realizar um excelente roteiro, ousar com o uso de diferentes gêneros e produzir cenas com detalhes que reforçam a questão de distinção de classe abordada pelo filme, é evidente que os prêmios recebidos no Oscar de 2020 foram os responsáveis por consolidar, ainda mais, o cinema sul-coreano. 

No entanto, ainda em sua entrevista para o Korean Magazine BR, Roberto reflete que é uma pena que o filme tenha sido consolidado por conta de uma premiação estadunidense, já que ele apresenta um potencial que deveria ser reconhecido além do Oscar. Franthiesco Ballerini afirma que o filme Parasita é um marco e que vai entrar para a história para sempre. “É a primeira vez que essa reserva de mercado do Oscar é dada para um filme de um país que não é da cultura do Oscar. Isso é um incentivo para o mundo inteiro”.  

O filme Parasita recebeu diversos prêmios, não só do Oscar, mas de muitos outros festivais, como a Palma de Ouro, BAFTA de Melhor Roteiro Original e Melhor Filme Estrangeiro, Golden Globes de Melhor Filme em Idioma Estrangeiro e entre outros. Essas conquistas foram um reconhecimento do cinema sul-coreano, que sofreu com uma ditadura intensa vivida pelo país entre 1961 e 1987. De acordo com matéria publicada na BBC, Mark Raymond, professor do Departamento de Comunicação da Universidade Kawngwoon, em Seul, na Coreia do Sul, afirma que quando a censura se instalou “Leis dificultavam a criação de estúdios e restringiam a quantidade de filmes independentes e mais criativos que eram financiados e produzidos”. 

Diretor Bong Joon-ho e elenco de "Parasita" na premiação do Oscar de 2020

 

 

Algumas medidas executadas pelo governo permitiram que o cinema sul-coreano conquistasse a notoriedade dos últimos anos. Uma das principais foi um sistema de cotas para filmes nacionais, além de universidades para formar cineastas, que, de acordo com o historiador Rodrigo Kenji, foi como Bong Joon-ho formou-se. Além disso, há a inclusão do cinema no currículo escolar, “Os alunos estudam cinema, é um assunto cobrado no vestibular, o acesso dos estudantes aos filmes é facilitado. Isso cria um público para o cinema e as artes em geral”, afirma Josmar Reyes, professor do curso de Realização Audiovisual da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e pós-doutorando em cinema sul-coreano na Universidade Sorbonne, em Paris, em matéria publicada na BBC. 

Quando analisamos o investimento da Coreia do Sul na cultura, é compreensível a importância do apoio de um país para que sua indústria cinematográfica e, até mesmo, outros setores da cultura, como, no caso da Coreia do Sul, os K-Dramas, K-Pop e manhwas, expanda e conquiste espaço globalmente. De acordo com Franthiesco Ballerini, a grande força do cinema sul-coreano, assim como outros setores, é a presença forte das empresas e do Estado incentivando e estimulando a competição. Também, o jornalista cita que as obras cinematográficas e de entretenimento da Coreia do Sul quebram barreiras, como o soft power, e atraem públicos, inclusive da China, que consomem muito os dramas sul-coreanos. 

Assim como o Japão, que recebeu o Oscar de Melhor Animação, em 2003, com o filme A Viagem de Chihiro, primeira animação estrangeira a vencer essa categoria na cerimônia, a Coreia do Sul conquistou o prêmio de Melhor Filme no Oscar de 2020, primeiro filme de língua não inglesa a receber o prêmio. Esses feitos, que consolidam a cultura de ambos os países e ficam registrados na história como um marco cultural, é o que possibilita que os costumes e relatos de uma sociedade ultrapassem barreiras e cheguem até nós, mesmo do outro lado do mundo, para conquistar e mostrar que existe além do que estamos acostumados a enxergar. De acordo com Amanda Rotta, os conteúdos nacionais ou estrangeiros são formas de absorver cultura e expandir os horizontes sem precisar atravessar o planeta para isso. “O Studio Ghibli foi um dos meus contatos mais aprofundados com a cultura japonesa, é uma forma de fazer você ver além da sua bolha, aumentar sua bagagem cultural e expandir o seu olhar”.

Apesar da importância das premiações e do investimento no soft power, existem outros meios de divulgar as culturas japonesa e sul-coreana. Os jornalistas e produtores de conteúdo atuam como uma importante ponte entre a obra e o público. Agora, chegou o momento de abordarmos a importância dos jornalistas em incentivar, evidenciar e informar, com ética e respeito, sobre cultura. Assim como os influencers, que, através de indicações, estimulam os seguidores a consumirem diferentes produções.

Esse é um Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo.

 

Autora: Wendy Gomes

Orientador: Prof. Dr. Sancler Ebert

 

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