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Além do Ocidente

O consumo da cultura japonesa e sul-coreana

Você já deve ter ouvido alguém falando sobre K-Dramas na academia ou no trabalho. Além disso, durante o seu trajeto, é provável que você já tenha notado pessoas vestindo camisetas de algum anime. Sem contar, é claro, no bairro da Liberdade, que recebe cada vez mais visitas no fim de semana. Tudo isso é resultado do crescimento da cultura asiática no Brasil, que está relacionado com o soft power, poder intangível que influencia através da atração e não da coerção, como a cultura. Da mesma forma, junto ao crescimento, a relevância das produções também torna-se aparente, e pode ser notada através de obras como Parasita, A Viagem de Chihiro e O Menino e a Garça, que foram premiadas no Oscar. No entanto, o caminho para tais conquistas foi árduo, muito bem pensado e houve o uso de estratégias significativas. O impacto dos animes e K-Dramas no Brasil vai além do entretenimento. Através deles, o público tem contato com a cultura, culinária, produtos de beleza e, até mesmo, geografia do Japão e Coreia do Sul.

 

A cultura de um país, além de entreter, é responsável por transmitir as crenças, valores e preservar, através do tempo, a história de um lugar. Ela está presente desde cedo na vida do ser humano e, vinda de diversos países, pode influenciar na moda, culinária e interesses de uma sociedade. De acordo com Natania Nogueira, professora e historiadora, a cultura é responsável por formar a identidade de um indivíduo, já que impacta no nosso consumo e aprendizado ao longo da vida.

 

No Brasil, a cultura japonesa é muito popular. Desde 1964, quando a TV transmitia as produções National Kid e Speed Racer, a atenção dos brasileiros já havia sido conquistada. As gerações de 1980 e 1990 devem se lembrar com carinho da época em que assistiram animes, animações de origem japonesa, como Dragon Ball e Cavaleiros do Zodíaco. No entanto, diferente do que muitos pensam, a cultura não é apenas um meio de entretenimento, ela proporciona aprendizados e cria conexões. 

 

Daniel Verna, mais conhecido como Kuroda, atua desde 2006 na produção do Anime Friends, maior evento da cultura POP asiática da América Latina. Ele, que é um grande fã da cultura POP japonesa, compartilha que os animes e os eventos proporcionam uma sensação de felicidade e acolhimento. “Um gordinho nerd, com orelha de abano, óculos, eu era o prato cheio do bullying na época da escola”. Kuroda complementa que “Esses eventos eram lugares onde eu me sentia bem, me sentia acolhido, me sentia feliz e me apaixonei, tanto que em 2004 foi o primeiro Anime Friends que eu fui, em 2005 eu já estava no evento fazendo sala de fã clube de tokusatsu, em 2006 eu já era funcionário da empresa”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Kuroda (localizado no centro da imagem) e equipe no Anime Friends. Foto: Divulgação/ Instagram/ @pisenox

 

Segundo o portal de notícias Omelete, durante o Unlock CCXP24, que ocorreu no dia 4 de dezembro de 2024, a Crunchyroll, plataforma de streaming dedicada a anime, revelou que o Brasil é o segundo país com mais assinantes do serviço de streaming de animes. “O Brasil tem um amor e uma história incrivelmente únicos por anime, e queremos ser tudo para os fãs de anime no Brasil – como, quando e onde eles querem consumir anime", declarou Rahul Purini, presidente da plataforma Crunchyroll.

Além de proporcionar conexões e bem-estar, a cultura expande a nossa visão do mundo que nos cerca e nos possibilita entender outras realidades. Além da cultura japonesa, as produções sul-coreanas vêm ganhando destaque significativo e, seja através dos filmes ou K-POP, gênero musical da Coreia do Sul, conquistam fãs ao redor do mundo. No entanto, foram os K-Dramas que ultrapassaram a barreira de idade e gênero. 

De acordo com pesquisa realizada pela nossa reportagem com 101 participantes, 73 pessoas consomem K-Dramas, e a idade varia entre 18 a 45 anos. Os consumidores conheceram as produções sul-coreanas de forma bem semelhante. Uma das participantes, que reside em Maricá, começou a assistir K-Dramas por indicação de uma amiga e, de acordo com ela, “foi um caminho sem volta! Você começa assistindo um ou outro e quando olha já está com uma lista imensa de dramas para assistir e viciada”. Essa é uma frase muito comum entre as dorameiras e, inclusive, foi um dos comentários mais apresentados na pesquisa, já que a maioria dos consumidores participantes dizem que começaram de forma despretensiosa, mas, agora, a lista não para de crescer.

Em matéria publicada no site Omelete, é divulgado que, “de acordo com a Netflix, 80% dos seus 650 milhões de usuários assistem a algum tipo de conteúdo coreano — seja ele um reality show, novela ou um filme em formato tradicional”. Além disso, é relatado que “Entre os mercados mais relevantes dentro deste recorte está a América Latina, que além de consumir tais produções, também exporta conteúdos que compõem cada vez mais a oferta que a Netflix leva ao mercado”. 

Nos dias de hoje, é possível encontrar dorameiros de diferentes idades. Natania Nogueira compartilha que o pai de sua amiga começou a assistir uma série coreana na Netflix e ficou viciado com 80 anos de idade. A idade não é uma barreira, e os K-Dramas estão cada vez mais presentes na rotina dos brasileiros. Até pouco tempo atrás, era possível encontrar grupos conversando sobre novelas de forma despretensiosa em filas, transportes ou, até mesmo, no trabalho. Hoje, com a expansão dos dramas sul-coreanos, podemos observar que o hábito não mudou, mas o conteúdo sim, e, cada vez mais, há pessoas de diferentes idades que compartilham o que estão assistindo e comentam sobre os capítulos. João Saito, mais conhecido como Kou, influenciador da cultura POP japonesa, compartilha que um dia, enquanto estava na academia, viu duas senhoras conversando sobre o K-Drama que estava passando na Netflix. “Não é mais sobre a novela da Globo que passa nove horas da noite, agora são os K-Dramas”, ele complementa.

Natania acredita que as novelas brasileiras ainda são muito consumidas, mas, de acordo com a historiadora, há mais pessoas que assistem K-Dramas no lugar das novelas. “A novela tem horário certinho, você precisa estar ali naquele horário. O drama não, eu posso assistir a hora que eu quiser. O mundo hoje não permite mais isso, ter um horário de uma coisa para começar e terminar, pelos menos em termos de entretenimento”, ela reflete.

De acordo com o site oficial da Netflix, foi realizada, em março de 2025, uma sessão de exibição do último episódio do drama Se a Vida Te Der Tangerinas, em parceria com o perfil Doramelizando, comunidade brasileira dedicada ao universo das produções coreanas, no São Luís Shopping, no Maranhão. “A sessão contou com mais de mil fãs apaixonados e influenciadores, que puderam vibrar e se emocionar juntos com os momentos finais da história”, conta o site. Também, o evento contou com a presença de Eduardo Braide, prefeito de São Luís, e Cheul Hong Kim, diretor do Centro Cultural Coreano no Brasil

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Sessão de exibição do último episódio do drama "Se a Vida Te Der Tangerinas". Foto: Divulgação/ Site Oficial

Animes e K-Dramas: Obras com roteiros profundos e narrativas emocionantes

Assim como a novela, o K-Drama e Anime compartilham algo em comum: são programas que reúnem pais, filhos, avós e tios. Kou conta que nos eventos em que participa é muito comum ser abordado por pais que dizem que começaram a gostar de animes porque o filho apresentou e eles assistiram juntos. Além disso, ele complementa que há casos de famílias inteiras que aparecem de cosplay nos eventos, “de certa forma, o anime é uma mídia de cultura POP, é algo que te diverte, que vai te relaxar para o momento de descontração, para um lazer”.

Além de entreter, o anime apresenta muito do folclore japonês, como as criaturas mitológicas conhecidas como Yokai, os costumes, maneiras, gestos e expressões. Há também os temas tratados nas obras, que, apesar de sutis, são perceptíveis. “Que nem One Piece, que, para mim, é uma obra extremamente política. Só que, ao mesmo tempo que é aquele político bem escancarado, você percebe que o Oda — autor da obra — coloca uma sutileza em certos temas. Eu gosto muito disso, porque faz você pensar e debater”, explica Kou. 

 

Além de One Piece, o influencer fala sobre Frieren, uma obra muito aclamada entre os fãs de anime. Segundo Kou, a narrativa traz muito sobre o luto, mas não da forma que estamos acostumados. É um luto sobre renascimento e sobre se reencontrar. “Eu gosto disso, dessa sutileza que eles apresentam em alguns temas que, na hora em que batemos o olho, pode ser que a gente não consiga perceber, mas aquilo fica na nossa cabeça”, complementa o produtor de conteúdo.

 

Roteiros complexos e temas relevantes são características presentes nas animações japonesas. Cristiane Sato, em seu livro JAPOP, afirma que “No roteiro, a principal característica reside numa questão de conceito, que é o de que a animação é uma forma de cinema com a mesma importância que a produção de filmes, e não apenas uma forma de cinema para produzir exclusivamente entretenimento despretensioso infantil”.

 

Também, no livro, Sato complementa que “A animação no Japão, porém, sempre foi considerada uma forma de cinema, e como tal considerada veículo adequado para todos os tipos de assuntos que podem ser objeto de um filme”. Um ótimo exemplo é o diretor Hayao Miyazaki, que produz filmes que valorizam o respeito pela natureza e, em sua maioria, apresentam protagonistas femininas fortes. Quando o assunto é produção japonesa, o Studio Ghibli é de extrema importância, e ele será abordado de forma detalhada em um dos próximos capítulos. 

 

Assim como os animes, as produções sul-coreanas também trazem assuntos importantes e delicados em suas narrativas. Natania Nogueira menciona que nos K-Dramas há muitas questões sociais relacionadas à saúde, alcoolismo, suicídio, bullying na escola, a inserção da mulher no mercado de trabalho e entre outros. “Embora tenha toda a fantasia que envolve a narrativa, tem essa parte social que eu acho que é bem latente, não deixa de ser uma crítica social”.

 

Aos poucos, a cultura asiática vem ganhando cada vez mais notoriedade. Um consumo, que antes era visto de forma preconceituosa, hoje é conhecido por diversas pessoas do mundo, com destaque para o Brasil, que é um dos maiores consumidores de animes e K-Dramas. “Um anime tem tanta profundidade quanto um filme, sabe. Então, querendo ou não, tem uma certa notoriedade. Que nem o Hayao Miyazaki ganhando dois Oscars, então eu acho que é isso, você entender que, mesmo sendo uma animação, vai te ensinar algo”, diz Kou. 

 

Natania reforça que o contato com outras culturas não nos afasta da nossa. “A gente tem uma mistura muito grande de cultura, e isso é bom, não é ruim. Não é como se você estivesse destruindo uma cultura, você está criando coisas novas. Não é uma destruição cultural, é uma criação de coisas novas a partir do que já tem". 

O destaque que os animes e K-Dramas vêm recebendo nos últimos anos é uma prova da importância de expandir o nosso consumo e conhecer diferentes produções. “Acho bom você poder saber de outras realidades para ter uma visão mais ampla do que é o mundo, são as pessoas, e as pessoas têm sofrimentos em todos os lugares, têm alegria e têm os desafios”, reflete Natania. A historiadora ainda complementa que foi libertador quando começou a se interessar por cultura, história e sociedade oriental, já que isso permitiu que ela não ficasse presa apenas ao Brasil, aos Estados Unidos e Europa.   

Por fim, através de relatos e experiências, é possível começar a compreender o tamanho do impacto da cultura japonesa e sul-coreana no Brasil. Também, é importante destacar que duas palavrinhas foram essenciais para o crescimento de ambas internacionalmente: soft power

O minidoc abaixo busca evidenciar, através de relatos, o impacto da cultura japonesa e sul-coreana no Brasil, assim como a sensação que as obras transmitem para os telespectadores. 

MINIDOC

Esse é um Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo

 

Autora: Wendy Gomes

Orientador: Prof. Dr. Sancler Ebert

 

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